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Crítica MDNA San Jose: Madonna: Profunda melancolia, melodias fracas

Aidin Vaziri para o San Francisco Chronicle

A turnê mundial de Madonna “MDNA”  chegou para duas noites de apresentações em San Jose no HP Pavilion no último sábado (6). Antes de chegar à Bay Area, o show já trazia manchetes sensacionalistas: Em Washington DC, Madonna chamou o presidente Obama de “muçulmano negro”, em Paris, a “Material Mom” de 54 anos, ouriçou a “baguete” de todos mostrando seu mamilo esquerdo; em Moscou ela expressou seu apoio às instigadoras do presidente Vladimir Putin, a banda feminina Pussy Riot. Então, o que Madge tinha reservado para o The Shark Tank *? (A arena também é comumente chamada de O Tanque de Tubarões).

Madonna

Madonna chegou ao palco toda armada. Literalmente. Para os quatro primeiros números ela fez uso de um pequeno arsenal de armas de fogo e armas semi-automáticas como a utilizada em uma igreja virtual, mirando os membros da plateia e, em uma cena certamente inspirada por Quentin Tarantino, abatendo vários homens mascarados cantando “Gang Bang” enquanto pendurava-se  num crucifixo de quarto de motel.

O tiroteio foi complementado por um jogo pesado. Madonna foi amordaçada e suspensa de cabeça para baixo por guerrilheiros durante “Hung Up”, que foi despida do efervescente toque Abba. Durante  “Heartbeat”, o telão exibia  imagens escuras de um funeral, enquanto dançarinos sem camisa e com máscaras de gás contorciam seus corpos. Em “Love Spent”, entretanto, vimos outro bailarino apertar com firmeza um espartilho ao redor da cintura de Madonna fazendo sua voz tremer levando-a as lágrimas. (A cena) parecia autêntica e completamente assustadora.

O espetáculo era grande, mas o set list foi terrível. Influenciado fortemente pelo mais recente (e, francamente, pior) álbum de Madonna, “MDNA”, resultou em um show de duas horas recheado de batidas sinistras e alguns refrões memoráveis. Os clássicos foram aborrecidamente  alterados, tanto que eles eram quase irreconhecíveis. “Like a Virgin”, o principal culpado, foi reformulado como um canto fúnebre e desafinado de piano, interpretado com a cantora contorcendo-se no chão com notas de dólar saindo de seu sutiã.

Houve uma notável exceção. Enquanto girava seu bastão e levava uma trupe de majorettes, Madonna fez uma versão bastante simples de “Express Yourself”, que ela depois perfeitamente encaixou com “Born This Way” de Lady Gaga. E para deixar as coisas bem claras, ela também cantou um pedaço de “She’s Not Me.” Foi um momento de pura ironia nostálgica ou apenas de ser mesquinha e esclarecer as coisas para sua subordinada? Era difícil dizer.

E então, houve sangue. Em outro momento, Madonna acidentalmente bateu com a guitarra. A pequena poça de sangue que se formou no meio da sua testa parecia um dos bindis* (um apetrecho utilizado no centro da testa) de  Gwen Stefani. Oh, ironia.

Houve uma notável ​​exceção: “Hoje é um dia muito especial para mim”, disse Madonna, dando uma pausa nas coisas estranhas e nas estripulias. “É o 30º aniversário do lançamento do meu primeiro single”. Nesse momento, seu grupo de dançarinos e músicos andróginos se reuniram em torno dela para marcar a ocasião, revivendo o clássico de  1982, “Everybody”. Madonna continuou: “Eu me lembro da sensação incrível que eu tive quando ouvi a música no rádio pela primeira vez.”  Três décadas depois, o sintetizador pop simples e a melodia R&B ingênua ainda pareciam incríveis. Foi um momento fora do roteiro que acabou se tornando o destaque do show. Pois, do contrário, o concerto parecia ser uma chatice. Na arena, os 18 mil ou mais fãs – a maioria na faixa dos 40 e 50 anos – pareciam exaustos, mas prontos para a festa antes mesmo de Madonna finalmente subir ao palco às 10h 30min.  Assim que ela chegou, porém, o clima ficou definitivamente escuro. Sim, “MDNA” é seu grande sucesso. Mas a desgraça e tristeza eram realmente marcantes ao vivo, e muitos de seus seguidores de longa data não estavam preparados para extender a noite de sábado. Em vez disso, muitos deles simplesmente foram para casa mais cedo.

Para ser claro: Foi um concerto magistralmente bem produzido. Ela poderia ter tocado melhores canções – dentre as tantas que possui – mas como artista, Madonna claramente necessita provocar os sentimentos de mágoa e traição. E, como um membro da plateia, você não consegue realmente ter oportunidade de fazer contato visual com Madonna. Mas, ainda assim, seria uma experiência triste.

Aidin Vaziri é crítico do San Francisco Chronicle música pop. E-mail: avaziri@sfchronicle.com. Obrigado a Jorge Luiz pela tradução da crítica.

CRÍTICA: Por que Madonna ainda é importante?

Madonna 30 anos - carreira e marketing

Madonna é, para melhor ou pior, considerada (bem ou mal) como a Rainha do Pop e, ao contrário da crença popular, o título faz com que seus braços com veias movam-se da esquerda para a direita em trajes de líder torcida. Ficamos com a sensação muito real quando se olha para Madonna em 2012 que percebemos em todos os sentidos que ela atingiu o ponto final da década de 1980. Quando, mais uma vez, ficamos sem palavras para definir a velha ‘Madge’, uma única frase vem à mente: “Ela literalmente conseguiu.”

Ela é, no entanto, a mesma Madonna que chega a San Jose para as apresentações de duas noites no HP Pavilion, em 06 e 07 de outubro. E da mesma forma que a advertência dos pais não surtam mais o efeito que já surtiram como nos anos 80, Madonna permanece cimentando o seu lugar na cultura pop e ainda faz barulho por onde passa.

Em honra da chegada da rainha, uma coisa deve ser lembrada (apenas uma) para realmente entender o que exatamente Madonna representa no vazio da cultura contemporânea. Porque, como é provável que você esteja lembrado, muitas vezes a própria Madonna abriu as portas para muitos jovens com vaginas e seu desejo de cantar.

A porta também é muitas vezes deixada entreaberta para a bajulação e imitação (válida ou não, e só para lhe atualizar, Lady Gaga, também está vindo à San Jose, em 17 de janeiro), mas as comparações parecem discutíveis: Nunca haverá uma “nova Madonna” porque nunca haverá novamente um momento como aquele, quando Madonna entrou em destaque. Ela é tão puramente o subproduto de sua época que as discussões sobre originalidade são quase totalmente sem fundamento.

Por exemplo, acreditem ou não, Zers Gen* (Geração Zero – em tradução literal), houve um tempo em que a apropriação irônica de imagens religiosas na verdade era um grande negócio. E como para algumas pessoas isso realmente importava, como em afiliadas da Igreja Católica que verdadeiramente protestavam. Agora é só uma chatice induzida (pelo menos no Ocidente), com todos usando uma cruz de cabeça para baixo como uma forma de fazer algum tipo de protesto.

Mesmo Madonna ainda usando esses velhos temas; sua atual MDNA Tour apresenta uma catedral e alguns arrulhos sagrados que pode ser mais o resultado de má acústica do que intenção estética. De qualquer forma, Madonna (cujo nome permanece como uma espécie de profecia auto-cumprida) foi uma das primeiras a realmente mexer com todos os que amam esse cultura hippie de “chinelão e cabelos compridos desleixados”.

É verdade, ela não estava sozinha. A década de 1980 foi o momento em que as desprezadas crianças católicas cresceram e começaram a colocar seu ressentimento religioso em sua arte (Bruce Springsteen completamente, The Cure, talvez, em parte). Mas Madonna fez primeiro e fez melhor, e literalmente não parou de fazê-lo, mesmo quando foi louvada e isso poderia fazê-la calar-se.

Ela estava em todos os lugares, ou seja, em qualquer coisa hedionda que tenha os anos 80 como tema que você já tenha visto. Entrar e encher os olhos no binário impressionante: luz neon para os homens; eclética mistura para as mulheres. A estética de misturar todos os estilos de moda que acabou se transformando em seu próprio estilo foi pelo menos parcialmente construída pela estrela pop.

Eu gostaria de dizer também que a palavra “estrela” (star) na frase anterior foi auto corrigida para “armazenar”(store), e se isso não lhe diz tudo o que você precisa saber sobre o estado atual e natureza intrínseca do pop e da música e da cultura , então eu não sei o que o faria.

No entanto, juntando cerca de 300 anos de Madonna (acho que houve um erro de digitação e na verdade ele queria dizer 30. Ou também pode estar fazendo uma alegoria de que seus 30 anos de carreira equivalem a 300), na verdade, se torna difícil, pois Madonna foi realmente a primeira estrela pop a nascer simplesmente como uma série de imagens e idéias mais do que qualquer catálogo singular de músicas ou vídeos ou esforços de cinema, ou mesmo um próprio perfil de relacionamentos.

Seus elementos mais marcantes são as escolhas de fotografias tiradas por Richard Avedon e similares, enquanto ela foi feita como Marilyn, vestida de Jean Paul Gautier, tiradas muitas vezes em preto-e-branco e com um sentido similar de minimalismo aplicado a sua própria mitologia: menina de Detroit foge para Nova York no auge da fusão da arte, moda, música e energia, e as façanhas da menina punk e pop foi dominar essa cultura com efeito. Esta é a história de Madonna, e isso realmente importa se foi divulgado e perpetuado pela própria?

Ninguém cuidou mais dessa imagem destinada a sustentar-se por cerca de 30 anos mais do que Madonna. Ela sempre foi obcecada por estar alguns passos à frente. Essa tática se aplica a sua música, pois ela é quem mais tem feito uma carreira localizando os sons que saem dos becos mais obscuros e colocando-os nas rádios cerca de seis a nove meses antes que eles realmente se tornem grandes sucessos (pense no New York clubhouse, no movimento Vogueing;  e na house music eletrônica de “Ray of Light”).

A coisa sobre constantemente reinventar-se é que, em um certo ponto, você não está mais ajudando a definir a cultura, mas apenas lutando para permanecer relevante nela. Superficialidade é adotada como parte da lente pós-moderna. Mas o legado de Madonna está enraizado em uma crença genuína de que esses elementos têm sua importância. E quando o seu legado é mexer com a sociedade, o que é devido à provocação de um artista e o que é devido à sensibilidade inata do público? Madonna foi realmente brilhante na forma como ela abordou temas tão tabus como sexo e homossexualidade, ou foi numa época em que a América estava totalmente fechada, sem ouvir nada, que facilmente poderia ser provocada?

Difícil dizer com certeza, mas é mais difícil dizer se isso importa. Como uma estrela pop que gosta de abordar o exagero e a distração como elementos vitais do que ela vagamente chama de “sua arte”, Madonna conseguiu criar em si mesma uma imagem de como ela quer ser vista, mesmo (ou talvez especialmente) agora. Dessa forma, ela sempre se posicionou como uma estrela pop para ser desconstruída em uma série de motivos e idéias, um esboço vago do que a década de 1980 deve ter sido, até mesmo para as pessoas que podiam jurar que a conheciam.

METRO ACTIVE – ROD BASTANMEHR (Obrigado a Jorge Luiz pela tradução)