CRÍTICA MOJO REBEL HEART: Muito material bom é um bom problema

MADONNA - MOJO-REVIEW-REBEL HEART

O novo álbum de Madonna chega carregado de controvérsia, gingado, audácia e franqueza sexual. E, em algumas vezes, ele até exagera. “Beija mais, molha mais”, ela sugere em Holy Water, uma canção discreta que mistura o sagrado e o profano que remete ao álbum Erotica, de 1992.

É a típica metade do álbum, na qual produtores da moda trazem uma variedade de cores e tons contemporâneos enquanto Madonna declara que ela ainda está entre nós, talvez protestando um pouco demais. Algumas colaborações são melhores do que outras. A gélida Hold Tight, composta por Ryan Tedder, é melódica, mas insossa; as sirenes características do produtor Diplo em Unapologetic Bitch lembram muito a música de M.I.A.. Contrariamente, todas as contribuições de Kanye West – incluindo a já citada Holy Water, a igualmente sugestiva S.E.X. (“Sou uma porta aberta, venha e entre em mim”) e a ótima Illuminati, na qual Madonna imagina uma boate cheia de governantes mundiais não tão secretos, são extraordinariamente inteligentes.

As melhores são Joan Of Arc – a bem-vestida Madonna Mártir fala de fama e mídia (“Sempre que eles tiram uma foto, eu perco uma parte que não consigo recuperar”), transformada pela clássica estrutura Pop e um vocal lindamente vulnerável – e Body Shop. Esta última, com uma batida sônica dos produtores Blood Diamonds e Dahi, soa como o que Madonna vem fazendo há anos: lindamente esperta, com uma melancolia quase indie, enfatizada por palmas religiosas e vocais de fundo cantados por crianças de coral. A metáfora central é dificilmente “Shakespeariana” – o herói de Body Shop está polindo os faróis dela, trocando o óleo dos cilindros –, mas numa tradição mais sutil, contornada pelo ritmo R&B. Ela te faz sorrir, não se envergonhar.

Madonna já admitiu que selecionar 30 faixas para o álbum foi bem difícil, e o resultado foi um absurdo: você terá que comprar a versão Deluxe de Rebel Heart para obter a faixa-título, viajando com o violão acústico assim como em Fast Car, de Tracy Chapman. Esta e a insolente Veni Vidi Vici, com os vocais provocantes de Nas, são tão boas quanto qualquer uma da versão Standard, pra dizer o mínimo.

E mesmo assim, muito material bom é um bom problema a se ter. Focando na personalidade e na dominação das batidas eletrônicas, Rebel Heart é o primeiro álbum de Madonna em algum tempo a ser tão bom para ouvintes quanto para dançarinos. Às vezes, ele enfatiza demais o que ela tem a dizer – como na estraga-festas Devil Pray. Mas, quando o toque dela é mais leve e o instinto fala mais alto, ele denota algo já conhecido pelos fãs: ninguém faz música como Madonna.

3 de 5 estrelas.

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