Lançamento ‘.W.E.’ no Japão: ‘W.E.’: Madonna leva estória de amor real além do limite

Por KAORI SHOJI

Ame-a ou não, um fator admirável sobre Madonna é que ela nunca deixou de ser a Material Girl. Ela faz isso aos 54 anos e, provavelmente, vai continuar aos 84. Desta forma, ela pode sentir uma colega Material Girl a milhares de quilômetros de distância e até mesmo em outro século. Você pode quase sentir as duas trocando grandes sorrisos e um bom abraço, em algum lugar do mundo Material. “W.E.” é a culminância desse abraço: o segundo filme de Madonna (seguindo o desastroso Filth And Wisdom, de 2008), está centrado em Wallis Simpson, que foi Duquesa de Windsor, na Inglaterra pós-guerra.

“Sra. Simpson” para o mundo e “Wally” para os amigos próximos, a divorciada americana flertou com Edward VIII, Rei da Inglaterra – e lançou um feitiço. O rei estava tão gamado que abdicou o trono para se casar com ela, e mexeu com o mundo num discurso público, no qual falou: “Descobri ser impossível carregar o pesado fardo da responsabilidade e exercer meus deveres de Rei sem o amor e apoio da mulher que amo”.

Algum dia ele se arrependeu? Algum dia eles discutiram e começaram a se odiar? “W.E.” não se interessa em buscar mais informações ou destacar qualquer esforço. E por que se importar? Há apenas uma ambição adequada a uma Material Girl, que é se manter suspensa numa eterna bolha de adoração. Madonna mirou em Simpson como uma que conseguiu este feito, e sua homenagem é sincera.

“W.E.” está melhorado principalmente pelo visual e atitude aristocratas de Andrea Riseborough, como Simpson, e a química dela com James D’Arcy, como o Rei. Há um momento quando o (ainda secreto) casal está num jantar formal. Ele acidentalmente rasga a bainha do vestido dela debaixo da cadeira e ela o repreende com um lento e arrastado “David!”. Este era o apelido secreto do Rei Edward, usado apenas em sua família. Com a declaração do nome, a verdade do relacionamento deles voou como uma pomba da cartola de um mágico. Cabeças viraram, olhos arregalaram-se. A respiração cortante de alguém fora do ângulo da câmera tem um efeito brilhante e prolongado.

Entretanto, a obsessão do Rei com Simpson é um conto comum e Madonna não agrega um novo valor ao monumento sagrado. Muitas cenas em “W.E.” parecem um clipe antigo da MTV – veja a cena da praia, na qual Simpson e Edward brincam em trajes de banho extremamente elegantes, com seus corpos rolando na areia e cobertos pela maré. Riseborough poderia ser substituído por Madonna e nem seria notada.

Mas não, Madonna fica atrás da câmera, como se não conseguisse interpretar uma mulher que ela talvez considere um alter-ego. A Rainha Material Girl pode ter conquistado o mundo, mas mesmo Madonna nunca conseguiu fazer um Rei largar seu trono (embora possamos sempre esperar que o ex-marido Guy Ritchie deixe de ser um diretor).

“W.E.” dá certo quando é apenas Simpson e Edward olham um pro outro, mas afunda pela trama secundária de uma semi-heroína fictícia chamada Wally Winthrop (Abbie Cornish). Com o mesmo nome da glamurosa Simpson, Wally é uma triste dona de casa de Manhattan em 1998, constantemente violentada por um marido arrogante e que sonha em ter um romance. Ela assombra Sotheby em tardes chuvosas, suspirando pela Coleção Windsor de cristais, vidros e joias, e reside no enorme abismo entre ela e sua xará.

Lá, Wally chama a atenção de um segurança russo, Evgeni (Oscar Isaac), e eles se dão bem de imediato. A relação deles (altamente sexual) segue paralelamente com a estória de amor mais elegante de Simpson e Edward, mas eu digo, é um grande intervalo. E, num ato errôneo, Madonna se estende no tempo, na distância e na circunstância, tudo para fazer as duas mulheres – Wallis e Wally – se encontrarem e conversarem sobre coisas de garotas. De acordo com a história, isso seria muito improvável. A verdadeira Simpson era esnobe, uma cruel ascendente social, que pensava tão democraticamente quando Maria Antonieta. “Deixe-os comer bolo e ficarem obesos”, era o que ela pensava das massas. Ela mesma vivia de champanhe e mantinha um compromisso eterno de permanecer magra (Edward e ela também simpatizavam com os Nazistas, mas o filme ignora isso).

Após a paixão, o escândalo e o sentimento de excitação fugitiva “nós contra eles”, o que manteve o casal unido num casamento de 35 anos? O filme sugere que foi o senso de personalidade de Simpson, pois, por mais que ela estivesse aos olhos do público, ela nunca o perdeu. Sem dúvida, Madonna consegue se associar a isso.

Japan Times