Pode soar estranho, mas as gerações mais novas entenderão melhor o disco de Madonna do que fãs que a viram surgir nos anos 1980. Quatro anos podem não parecer tanto tempo, mas, no mundo da música pop, onde tudo é etéreo, é tempo demais entre um álbum e outro. E foi há exatos quatro anos que Madonna lançou seu último álbum, Hard Candy. Naquela época, Lady Gaga ainda engatinhava em direção à fama. Depois que estourou, porém, passou anos desfrutando com tranquilidade de uma posição central no cenário pop, que a ausência de Madonna lhe permitia assumir. Não uma ausência total: sempre que pode, Madonna faz questão de criticar Gaga, mas a melhor resposta da rainha do pop vem agora, no álbum MDNA.
Ouvintes abaixo dos 20 anos de idade poderiam até confundir os primeiros 30 segundos do disco com um CD de Lady Gaga. Antes de cantar os primeiros versos de Girl Gone Wild, Madonna faz uma prece, seguindo o estilo de referências religiosas que a consagrou nos anos 80 e que foi copiado exaustivamente por Gaga. Mas, se Madonna se sente ameaçada por quem quer que seja (Adele? Lana Del Rey?), ela faz questão de se autoafirmar de formas diferentes neste novo trabalho. Seja inserindo referências ao próprio nome em Give me All Your Luvin’ e ao disco em I’m Addicted, seja fazendo a rapper Nicki Minaj, uma das colaboradoras do disco, proclamar, em I Don’t Give A, que “só existe uma rainha, e essa rainha é Madonna.”
Já na abertura do disco, Madonna relembra com uma prece as referências religiosas que se tornaram uma de suas marcas registradas no começo dos anos 80. Mas a música segue uma linha electro de batidas dançantes, que, assim como Hung Up (2005), tem atmosfera de pista de dança, quase como um remix. Como em toda música eletrônica, a preocupação maior é com o ritmo, portanto, as letras ficam de lado e Madonna canta versos adolescentes, como “As garotas não se comportam mal, mas eu sou má mesmo assim. Ei, ei, ei, a garota ficou selvagem”.
Desde a divulgação dos primeiros singles, MDNA gerou uma série de controvérsias. A primeira, por causa do título, que pode ser interpretado como a abreviação do nome da cantora, mas também como uma referência à droga MDMA (ecstasy), muito associada à cultura da música eletrônica. Depois, porque alguns críticos acham que as letras das músicas não condizem com os 53 anos de Madonna. Em Give Me All Your Luvin’, por exemplo, ela canta em meio a gritos de líderes de torcida: “Não me venha com jogos estúpidos, porque sou um tipo diferente de garota.” Muito velha para isso?
Se sobra ingenuidade nas letras, no entanto, a cantora se mostra experiente em outros aspectos do disco. A começar pela escolha do gênero que domina o álbum, uma opção longe de ser casual. É claro que Madonna ficou conhecida por misturar música pop e disco, mas aqui ela aposta em subgêneros extremamente atuais e que estão por toda a parte nas listas da Billboard, a revista que compila as músicas mais tocadas nos Estados Unidos. Além do electro, que aparece em faixas como Girl Gone Wild, há o techno minimalista e o dubstep, gênero derivado do dub que está em alta nos EUA após o sucesso de artistas como Skrillex. Os últimos compõem, por exemplo, a música Gang Bang, que não por acaso é uma das melhores do CD.
Não é só por meio de seus toy boys (namoradinhos como o modelo brasileiro Jesus Luz) que Madonna se mantém conectada com a juventude. Ela também conta com um time de profissionais especializados em fazerem a rainha do pop soar extremamente atual. Se Hard Candy tinha produção de estrelas do hip hop como The Neptunes, Timbaland e Justin Timberlake, quando aquele gênero estava em alta nos EUA, MDNA traz experts nas batidas eletrônicas, como Benny Benassi (do hit Satisfaction) e Martin Solveig.
Todos estes fatores fazem com que um novo álbum de Madonna gere grande expectativa, ainda hoje. Guardado a sete chaves desde o ano passado, MDNA foi alvo de tanta curiosidade que, neste ano, a apresentação de Madonna durante o Superbowl – a final do campeonato de futebol americano – bateu recorde de audiência na televisão, quando foi vista por 114 milhões.
Adele pode dominar as paradas, Lana Del Rey pode ter o vídeo mais visto do YouTube, e Lady Gaga pode ser a celebridade mais influente do mundo segundo a revista Forbes. Mas, no placar do pop, Madonna ainda dá de dez a zero em qualquer uma delas. (Veja)
E Madonna + MDNA + Girl Gone Wild continuam causando polêmica, e agora, a igreja católica entrou no meio.
Depois de seer acusada pelo DJ Deadmau5 de ter estimulado o uso de drogas durante o Ultra Music Festival em Miami, no qual promovia seu novo álbum, MDNA, na Flórida, Madonna negou, através de sua página no Twitter, a acusação. O DJ xingou a cantora de “idiota f…” e disse que ela pediu ao público do Festival para “ver Molly”. Molly é uma expressão utilizada para designar um ingrediente ativo do ecstasy.
Não é fácil ser Madonna. Significa, por exemplo, ser desafiada a todo momento por cantoras mais jovens e dispostas, que guardam ainda o ar insolente que ela tinha nos tempos de Like A Virgin. Ou ter vendido 300 milhões de discos e trazido tantas inovações para a música e a dança que cada lançamento seu é analisado com muito mais rigor que o aplicado a qualquer astro pop. Ou ainda passar quase três décadas quebrando barreiras de comportamento e sexualidade e, aos 53 anos, ter de desfilar ao lado de efebos para confirmar-se como símbolo sexual.
Por Sérgio Martins para a revista VEJA Ed.25 de março de 2012. Scan de IQUE in Vogue.
por conta de um comentário sobre a não-indução do KISS até hoje.
Nós já nos encontramos com todas elas no decorrer desses 30 anos – juntamente com os muito alter-egos que nem podem ser listados. Então não deveria ser nenhuma surpresa que a rainha do pop das 1000 faces tenha adicionado mais alguns auto-retratos a sua galeria com seu 12º álbum 
Retorno
Escrever sobre algo que Madonna faça para mim é um pouco complicado pelo simples fato de ser fã da mesma, mas nada me impede uma imparcialidade e um olhar totalmente voltado a admirar o trabalho dela, seja em qual área que for, com alguma criticidade. Talvez seja por isso que eu tenha demorado um pouco a postar sobre este filme. Demorei a escrever sobre porque talvez tenha querido digerir mais um pouco, criar um conceito, analisar sob outros prismas, seja em cenas picadas lançadas pela Internet ou seja analisando o trailler ou lendo outras críticas à respeito depois de ter assistido ao filme.
A história de amor do Rei Edward (James D’Arcy) pela americana divorciada Wallis Simpson (Andrea Riseborough) é o fio condutor de W.E. – O Romance do Século (W.E., 2011), segundo filme da popstar Madonna como diretora. A cantora, que lança também seu novo disco MDNA neste mês, ficou encantada com o fato do Rei abdicar do trono inglês para poder se casar com uma plebeia, que também era divorciada. Para aumentar a dramaticidade da história, a diretora e também co-autora (junto com Alek Keshishian) resolveu narrar o filme sob a ótica de uma nova-iorquina, Wally Winthrop (Abbie Cornish), oprimida pelo marido, um psiquiatra premiado, e obcecada pela história da plebeia.
O longa-metragem, uma crítica visível ao machismo e ao casamento, traz uma mensagem presente em diversas músicas de Madonna. E na história, ela chega a ser contundente, criticando não só os homens (“homens são muito visuais”), mas também a mídia (“você não deveria se preocupar com as fofocas”).